O plano para o Marrocos derrubar a França — ou levá-la aos pênaltis

Dez jogos de dados desenham o caminho estreito do Marrocos nas quartas: bloco que não cede chance clara, transição na esquerda da França, bola parada e o relógio — e o que precisa dar certo para o jogo chegar aos pênaltis.

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O plano para o Marrocos derrubar a França — ou levá-la aos pênaltis

A França chega às quartas de final desta quinta-feira com a campanha mais pesada que um favorito pode apresentar: cinco jogos, cinco vitórias, 14 gols feitos, 2 sofridos — e um detalhe que resume tudo: em nenhum minuto dos cinco jogos ela esteve atrás no placar. Do outro lado está um Marrocos invicto, que empatou com o Brasil, eliminou a Holanda nos pênaltis e despachou o Canadá com 3 a 0 fora de casa. A pergunta deste post não é "quem é favorito" — isso o mercado já respondeu. É mais útil que isso: o que, concretamente, o Marrocos precisa fazer para vencer — ou para arrastar a França até a disputa de pênaltis?

Analisamos os cinco jogos de cada um na Copa com os relatórios oficiais da FIFA e os dados do FotMob, e completamos o retrato da França com o relatório de elenco do Wyscout, que agrega exatamente os mesmos cinco jogos. Antes de começar, o combinado de sempre: vamos usar bastante o xG, a nota de 0 a 1 que cada finalização recebe com a probabilidade de virar gol, pela qualidade da chance (distância, ângulo, tipo de jogada). Somar o xG de um time mede volume de chance criada — nunca "os gols que deveriam ter saído". Para falar de perigo de verdade, contamos as chances claras: finalizações com xG de 0,2 ou mais, o patamar em que se marca com regularidade.

E três checagens que fizemos de saída, porque mudam números importantes. Primeiro: a disputa de pênaltis de Marrocos x Holanda entra no mapa de finalizações do FotMob como dez cobranças de xG altíssimo — excluímos as dez de toda estatística deste texto (pênalti de shootout não é chance criada em jogo). Segundo: um dos gols que o Marrocos sofreu foi gol contra, um desvio infeliz contra o Haiti — também não conta como chance do adversário. Terceiro: o 4 a 1 da França sobre a Noruega precisa de asterisco duplo — a Noruega jogou com o time reserva (já mostramos isso no pre-match das oitavas) e a França com a zaga mexida, Lacroix de titular, sem Saliba, Digne e Rabiot. Vamos sinalizar sempre que esse jogo aparecer.

O jogo que a França te dá — e o que ela cobra

Com a bola, a França é o que os números dizem: 58% de posse média, um 4-2-3-1 usado em 100% dos minutos, Mbappé com 7 dos 14 gols e Olise como fábrica de chance — 5 das 12 assistências do time, 10 passes que viraram finalização e 17 escanteios cobrados (Wyscout). A pressão dela também é real: pelo PPDA do Wyscout — quantos passes o adversário consegue trocar antes de sofrer um bote — o rival da França dá cerca de 11 passes e é incomodado; a França, quando tem a bola, troca quase 20 antes de alguém chegar nela.

Mas o mapa das chances de verdade conta uma história mais específica do que "a França atropela". Olhe de onde saíram as 18 chances claras que ela criou:

De onde saíram as chances claras da França em cada jogo da Copa 2026.
Como ler: cada barra é um jogo da França; a altura é o número de chances claras criadas (finalizações com xG ≥ 0,2), empilhadas pela origem — contra-ataque, jogada trabalhada ou pênalti. A Noruega usou reservas naquele jogo.

Três padrões saltam do gráfico. Um: a França não criou uma única chance clara de bola parada em cinco jogos — o único gol dela ligado a escanteio foi um rebote de xG 0,05 contra a Suécia. Dois: quando o adversário se abre, ela mata em transição. A Suécia saiu atrás no placar, foi buscar o jogo, e levou três chances claras de contra-ataque num jogo só (de 0,62, 0,55 e 0,33 — a primeira virou gol de Barcola). Três: contra bloco fechado e paciente, a França definha. O Paraguai passou o jogo das oitavas inteiro em bloco baixo — 50 sequências defensivas com o time atrás da linha da bola, segundo a classificação de fases da FIFA — e cedeu uma chance clara de jogada em 90 minutos (e ainda assim aos 90). A França só venceu porque ganhou um pênalti aos 70, que Mbappé converteu.

O porém do plano paraguaio é que ele era só metade de um plano: o Paraguai criou 0,13 de xG somado no jogo inteiro — nem uma chance ok. Bloco que não morde no outro lado morre de pênalti, de gênio individual ou de cansaço. É aqui que o Marrocos é diferente — já chegamos lá.

Por onde a França sofreu: a esquerda e a bola parada

Se ninguém furou a França com jogada trabalhada, por onde ela sangrou? Os dois gols que sofreu na Copa saíram do mesmo molde: batida perfeita numa chance pequena, com a defesa em movimento — um contra-ataque do Senegal concluído por Mbaye aos 90, e o chute de Aasgaard aos 21 pela Noruega. As duas finalizações valiam 0,10 de xG cada.

E há um corredor preferencial para esse tipo de facada:

Percentual de duelos defensivos ganhos pelos defensores e volantes da França nos 5 jogos da Copa.
Como ler: cada barra é a fatia dos duelos defensivos (disputas quando o adversário tem a bola) que o jogador venceu na Copa, pelo Wyscout, com o total entre parênteses. Abaixo da linha dos 50%, perdeu a maioria.

Os dois laterais-esquerdos da França são os únicos titulares abaixo dos 50%: Digne venceu 3 de 7 duelos defensivos (43%) e Theo Hernández 8 de 18 (44%) — enquanto o lado direito de Koundé ganha 68% e os volantes Koné e Tchouaméni passam dos 70%. O detalhe que transforma estatística em plano de jogo: Hernández perdeu seis duelos no próprio terço do campo, que renderam dois chutes adversários e um gol. E quem ataca exatamente esse corredor é Hakimi, o lateral mais agudo do Marrocos, com Saibari — autor de 3 gols na Copa — flutuando pelo mesmo lado.

O segundo caminho apareceu no jogo da Noruega — com a ressalva de sempre (reservas de um lado, zaga mista do outro), foi o único jogo em que a França cedeu mais de uma chance clara: três, e nenhuma de troca de passes longa. Um pênalti (que Maignan defendeu), uma bola parada de 0,26 e a chegada de Bobb aos 72 (0,29). Com Saliba e Upamecano juntos em campo, a França cedeu duas chances claras em quatro jogos — mas no alto, dentro da própria área, a amostra acende uma luz: Upamecano venceu 2 de 5 duelos aéreos na própria área e Koundé 1 de 3 (Wyscout; amostra pequena, leia como sinal). Forçar escanteio contra a França é raro — ela cedeu 13 em cinco jogos — mas cada um vale ouro: o Marrocos já fez dois gols de bola parada nesta Copa.

O Marrocos que chega: os dois modos de um invicto

O currículo marroquino na Copa: 1 a 1 com o Brasil, 1 a 0 na Escócia, 4 a 2 no Haiti, 1 a 1 com a Holanda (3 a 2 nos pênaltis, depois de 120 minutos) e 0 a 3 no Canadá. E o que mais interessa para esta quinta: o Marrocos já mostrou que joga nos dois modos — teve 70% de posse contra a Holanda e sufocou; e entregou campo ao Canadá — 120 recepções canadenses no último terço (o terço do campo mais perto do gol marroquino), contra 44 do Marrocos no sentido oposto — para vencer por 3 a 0 com cinco finalizações no jogo inteiro. Os três gols: uma bola parada e dois contra-ataques. Contra a França, o modo Canadá é o figurino.

A base disso é uma defesa que quase não concede:

Chances claras criadas e cedidas por França e Marrocos em cada jogo da Copa 2026.
Como ler: cada par de barras é um jogo; a barra colorida é quantas chances claras o time criou, a cinza é quantas cedeu. À esquerda a França, à direita o Marrocos. No jogo da Holanda (120 minutos) a disputa de pênaltis está excluída.

O choque de forças em uma linha: a França cria 3,6 chances claras por jogo; o Marrocos cede 0,8 — quatro em cinco jogos, e nenhuma das quatro virou gol (Igor Thiago e o haitiano Joseph mandaram para fora chances enormes; Bounou defendeu a do canadense Oluwaseyi; a falta de Jonathan David foi para fora). Contra a Holanda foram 120 minutos sem ceder uma chance clara sequer: 6 finalizações holandesas somando 0,24 de xG — volume de quase nada. Alguma coisa terá que ceder nesta quinta, e não é retórica: é o confronto estatístico do jogo.

E o melhor argumento de que o plano escala para a elite já aconteceu: contra o Brasil, o adversário mais parecido com a França que o Marrocos enfrentou, foi jogo de uma chance clara para cada lado — e a do Marrocos, criada em contra-ataque e convertida por Saibari (0,64), enquanto a do Brasil morreu para fora. Posse quase dividida (49% a 51%), placar 1 a 1, e a sensação que os números confirmam: o Marrocos não precisa do jogo aberto para machucar.

O aviso simétrico — e a noite que Bounou precisa ter

Antes de qualquer euforia com o bloco marroquino, o dado mais duro do confronto:

O xG da finalização de cada gol sofrido por França e Marrocos na Copa 2026.
Como ler: cada barra é um gol sofrido na Copa; a altura é o xG da finalização que virou gol. Laranja: gols que a França sofreu; azul: gols que o Marrocos sofreu. A linha tracejada marca onde começa a chance clara (0,2).

Ninguém precisou de chance clara para marcar nesses dois times. Os cinco gols do gráfico valiam de 0,03 a 0,10 de xG — chutes que não entram uma vez a cada dez, batidos com perfeição. A leitura para o Marrocos tem dois gumes. O bom: a França também cai nesse molde — não é preciso desmontá-la, basta uma transição bem executada. O péssimo: a França é o time da Copa que mais converte chance pequena. Metade dos 14 gols dela saiu de finalizações de xG 0,12 ou menos — incluindo o hat-trick de Dembélé contra a Noruega, três batidas em chances de 0,09, 0,11 e 0,09. E quase metade do volume de chute francês (39 de 87) vem de fora da área, com três gols. Traduzindo: mesmo o bloco perfeito não zera o risco. Ele reduz o jogo a meia dúzia de chutes difíceis — que Mbappé e Dembélé, às vezes, fazem parecer fáceis.

É por isso que a noite de Bounou é uma variável do plano, não um detalhe. A régua aqui é o xGOT (e o "saldo de gols evitados" que sai dele): diferente do xG, que mede a qualidade da chance, o xGOT mede a qualidade do chute depois que ele sai do pé, só nos chutes no alvo — um goleiro que sofre menos gols do que o xGOT que enfrentou está defendendo acima do esperado. Na Copa, o saldo de Bounou está levemente negativo (−0,44 na soma dos jogos), entre a boa noite contra o Canadá (+0,53) e a ruim contra a Holanda (−0,84), além do desvio infeliz que virou gol contra diante do Haiti. Nada disso o desmerece — é o goleiro da histórica campanha de 2022 — mas o dado é o dado: para segurar o chute de fora da França, Bounou precisa render acima do que vem rendendo. Do outro lado, aliás, o aviso é o inverso: Maignan tem saldo positivo (+0,23) e defendeu um pênalti em jogo nesta Copa, o de Strand Larsen no jogo da Noruega.

O relógio joga para o Marrocos — até nos pênaltis

Se o plano é fechar o jogo, a pergunta honesta é: e o gol, vem de onde? Além da transição, vem do relógio:

O minuto de cada gol de Marrocos e França na Copa 2026.
Como ler: cada ponto é um gol na Copa; a linha de cima é o Marrocos, a de baixo é a França. A faixa destacada marca o trecho depois dos 78 minutos.

Metade dos gols do Marrocos na Copa saiu depois dos 78 minutos — em três dos cinco jogos — e o banco é o motor disso: Rahimi entrou nos cinco jogos e produziu dois gols, a melhor chance da prorrogação contra a Holanda (0,74, aos 97) e um gol na disputa de pênaltis. Foi assim que o Marrocos venceu o Canadá (0 a 0 até os 50), o Haiti (virada consolidada no fim) e arrancou o empate com a Holanda aos 90 minutos, com Issa Diop, quando estava eliminado. Aliás, outro dado de nervos: o Marrocos já esteve atrás no placar em dois jogos nesta Copa e não perdeu nenhum — a França, que nunca esteve atrás, é justamente o time cuja reação ninguém testou.

O contraponto, para não vender ilusão: a França também fecha forte — 5 dos 14 gols dela saíram depois dos 70, com um banco em que Doué, Cherki e Barcola entram sem queda de nível. O fim de jogo não é um passeio marroquino; é a fase em que os dois times são mais perigosos. A diferença é que o empate serve ao Marrocos até o minuto 120, e à França não serve nunca — quanto mais o zero dura, mais a França precisa se estender, e cada metro que ela avança é um metro a mais de campo para Hakimi e Rahimi correrem.

E se chegar aos pênaltis? O Marrocos acabou de passar por essa porta: 3 a 2 sobre a Holanda, com Bounou pegando a cobrança de Summerville. Mas a honestidade manda abrir o número: Hakimi e El Aynaoui acertaram o poste nas cobranças deles, a Holanda desperdiçou duas sozinha — e, do outro lado desta quinta, estará um goleiro que defendeu pênalti em jogo nesta Copa. Pênalti é margem fina, não plano. O plano é o que está acima.

O plano em oito linhas

  1. Não abrir o jogo. Nunca. As chances claras da França nascem quando o adversário se estica — a Suécia aberta levou três contra-ataques claros num jogo. Contra bloco fechado, ela criou uma chance clara de jogada em 90 minutos (Paraguai) — e precisou de pênalti para vencer.
  2. Modo Canadá, não modo Holanda. Aceitar posse na casa dos 45%, como contra o Brasil. O Marrocos não precisa da bola para machucar — venceu o Canadá com cinco finalizações.
  3. Construção limpa, sem gracinha atrás. Contra o Paraguai, a França montou 24 sequências de pressão pós-perda — mais que o dobro do que fez em qualquer outro jogo da Copa. Perder a bola saindo de trás é entregar a transição que ela mais agradece.
  4. A avenida é a esquerda da França. Digne (43% dos duelos defensivos ganhos) e Theo Hernández (44%) são os únicos titulares abaixo da linha dos 50%. Transição direta no corredor de Hakimi, com Saibari por dentro — os dois únicos gols que a França sofreu foram chances de 0,10 muito bem batidas, com a defesa dela em movimento.
  5. Cada bola parada vale ouro. A França não criou chance clara de bola parada em cinco jogos, mas cedeu as mais limpas assim (a de 0,26 da Noruega; Upamecano e Koundé abaixo de 50% no aéreo da própria área — amostra pequena). O Marrocos já fez dois gols de bola parada na Copa. Ela cede poucos escanteios (13 em cinco jogos): não desperdiçar nenhum.
  6. Disciplina absoluta na área. O único gol de Paraguai x França foi pênalti, e Mbappé não perdoa (converteu o dele; Maignan ainda pegou um no outro lado). Olise é quem mais sofre falta no time (9): cuidado redobrado com a mão e com o bote atrasado perto da área.
  7. Levar o jogo para depois dos 78. É o território do Marrocos — metade dos gols dele na Copa — e do banco: Rahimi participou de gol ou grande chance em três mata-matas seguidos. O empate trabalha para o Marrocos o jogo inteiro; a ansiedade é toda francesa.
  8. Se vier o pênalti, que venha com pés frios. Bounou acabou de vencer um shootout — mas Hakimi e El Aynaoui bateram no poste, e Maignan defende pênalti. Nos 90 (ou 120) minutos anteriores é que o jogo se ganha.

Sejamos claros sobre o tamanho da tarefa: a França venceu os cinco jogos sem estar atrás um minuto sequer, converte chance pequena como ninguém e tem no banco o que muita seleção não tem no time. O caminho do Marrocos é estreito. Mas ele existe, e os dados desenham cada curva: bloco que não cede chance clara, transição no corredor esquerdo da França, bola parada, relógio — e uma noite grande de Bounou. E o Marrocos joga, há cinco partidas, exatamente o futebol que esse caminho pede. Hoje saberemos se o papel vira grama.


Fontes: relatórios oficiais da FIFA (Post Match Summary) e FotMob para os dez jogos da Copa 2026 analisados (cinco de cada seleção, 13/06 a 04/07); Team Report do Wyscout da França, agregando os mesmos cinco jogos. Contagens de chance clara re-derivadas finalização a finalização a partir do shotmap do FotMob (xG ≥ 0,2), com a disputa de pênaltis de Marrocos x Holanda excluída e gol contra fora das contagens. Estatísticas individuais do Marrocos vêm de amostras de cinco jogos do FotMob — leia como sinal, não como sentença.