Beiranvand contra a Bélgica: a imprensa exaltou, e os números seguram

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Beiranvand contra a Bélgica: a imprensa exaltou, e os números seguram

A Bélgica empatou em 0 a 0 com o Irã e saiu de campo com a sensação de quem deixou pontos no caminho. No dia seguinte, o nome que sobrou nas manchetes não foi de nenhum craque belga: foi de Alireza Beiranvand, o goleiro iraniano. A imprensa exaltou a atuação. A pergunta que nos interessa é simples: os números sustentam o elogio, ou foi entusiasmo de quem viu um zero no placar?

Detalhamos abaixo o que Beiranvand fez, comparamos com o melhor goleiro da primeira rodada e — o ponto mais importante — mostramos onde está o limite honesto dessa leitura.

O que Beiranvand fez em campo

Foram sete defesas, nenhum gol sofrido e 100% de aproveitamento (as sete finalizações no alvo que enfrentou, ele defendeu todas). Cinco delas com mergulho, todas dentro da área — ou seja, finalizações de perto, das que costumam virar gol. O rating do FotMob, a nota de desempenho que o site dá de 0 a 10 juntando tudo o que o jogador fez, foi 9,09: altíssimo para qualquer posição.

Mas defesa também tem grau de dificuldade, e é aí que entra a métrica central desta análise: o goals prevented (gols evitados). Funciona assim — cada finalização no alvo recebe uma nota de perigo, de 0 a 1, conforme a chance de virar gol (um chute fraco, no meio do gol, vale pouco; um cabeceio à queima-roupa no canto vale quase 1). Somando o perigo de tudo que foi no gol, chega-se ao xGOT, o "tanto de gol esperado" daquelas finalizações no alvo. O goals prevented é a conta final: esse total menos os gols que o goleiro de fato sofreu.

Beiranvand enfrentou 1,49 de xGOT e sofreu zero. Goals prevented: +1,49. Em linguagem de torcedor: pela qualidade do que a Bélgica acertou no alvo, um goleiro mediano teria sofrido cerca de um gol e meio naquele jogo — e ele não sofreu nenhum. Vale a ressalva honesta: o "1,49" é uma estimativa de um modelo, não uma contagem literal de gols que existiram. Ninguém "deixou de fazer 1,49 gol". O número diz que ele segurou um volume de chance que, na média, costuma virar um gol e meio.

O benchmark: o melhor goleiro da rodada anterior

Um número sozinho não diz se é bom ou ótimo. Precisa de régua. A nossa é o melhor goleiro da primeira rodada da Copa: Patrick Beach, da Austrália, que naquela rodada fez uma atuação consagradora contra a Turquia.

Métrica (total do jogo) Beiranvand vs Bélgica Patrick Beach vs Turquia
Rating FotMob 9,09 8,88
Defesas 7 8
Gols sofridos 0 0
Aproveitamento 100% 100%
Perigo enfrentado (xGOT) 1,49 1,46
Gols evitados (goals prevented) +1,49 +1,46

As duas linhas são quase idênticas — e, no quesito que mais pesa, o tanto de gol evitado, Beiranvand ficou inclusive um fio à frente. A resposta à pergunta do título, então, é clara: a atuação se sustenta. Não foi o zero no placar inflando a percepção; foi um jogo de goleiro no mais alto nível que a Copa já mostrou.

A nota da nossa fórmula — e o cuidado de não comparar errado

Aqui no blog cada goleiro recebe uma nota de 0 a 100 por jogo, calculada por uma fórmula que pesa três coisas: gols evitados (60% da nota), aproveitamento de defesas (25%) e volume de defesas (15%). A atuação de Beiranvand contra a Bélgica deu 88,5, a maior entre os goleiros da segunda rodada. A de Patrick Beach, na primeira, deu 96,8.

E aqui mora uma armadilha que precisamos desarmar. Seria errado concluir, desses dois números, que Beach jogou melhor. A nota não é uma medida absoluta: ela compara o goleiro com os outros goleiros da mesma rodada. Beiranvand foi avaliado contra os oito que jogaram até agora na segunda rodada; Beach, contra os quarenta e nove da primeira. São réguas de tamanhos diferentes, então as notas não se comparam de forma direta. O que se compara, e é o que fizemos na tabela acima, é a linha crua de cada um — defesas, aproveitamento, gols evitados. E nela os dois estão no mesmo patamar.

O outro lado da mesma história

Agora a parte que a manchete não conta. Esse mesmo Beiranvand, na primeira rodada, foi o 32º colocado entre 49 goleiros, com nota 37,0. Não por azar: contra a Nova Zelândia ele enfrentou 1,0 de xGOT e sofreu 2 gols — goals prevented de −1,0. Ou seja, sofreu mais do que a qualidade das finalizações sugeria. Um jogo abaixo da conta.

O mesmo goleiro, duas rodadas, dois extremos: de −1,0 a +1,49 em gols evitados. Isso não é contradição, é a natureza da posição. A nota de um goleiro é refém do jogo — do quanto, e de que qualidade, é o que ele precisa defender. Num jogo ele quase não trabalha; no outro, segura a equipe sozinho. Por isso é preciso cuidado ao transformar uma atuação, por mais brilhante que seja, em veredito sobre o goleiro.

O que esta análise não cobre

Dois limites, ditos na cara para o leitor confiar no resto:

Primeiro, é um jogo só. O assunto aqui é exatamente essa atuação contra a Bélgica — e ela foi excelente. Mas excelente naquele jogo não é o mesmo que "melhor goleiro da Copa". O próprio retrospecto da primeira rodada mostra por quê.

Segundo, a fórmula mede só uma coisa: evitar gol. Ela não pontua a saída de bola nem o jogo com os pés. Na partida, a distribuição de Beiranvand foi modesta — 20 de 34 passes certos, 59% —, e isso simplesmente não entra na conta. Mas vale notar: o que a imprensa exaltou, e o que de fato decidiu o jogo, foi precisamente o que a fórmula mede — as defesas. Nesse recorte, ele foi impecável.

Conclusão

A imprensa acertou. Contra a Bélgica, Beiranvand fez uma das maiores atuações de goleiro da Copa até aqui: transformou um volume de chance que costuma render um gol e meio em um zero limpo, no mesmo nível do melhor goleiro da rodada anterior. O elogio à atuação é justo e os números o seguram.

O cuidado fica para a conclusão que se tira disso. Uma noite de gala não reescreve o goleiro — na rodada anterior, o mesmo Beiranvand teve um jogo abaixo da conta. O que vimos contra a Bélgica foi um pico altíssimo. E reconhecer a altura do pico, sem fingir que ele é o nível do mar, é o que separa a análise da manchete.


Como calculamos a nota do goleiro

A nota de 0 a 100 de cada goleiro, por jogo, sai de três métricas com pesos diferentes:

  • Gols evitados — goals prevented (peso 60%). O total de perigo das finalizações no alvo que ele enfrentou (xGOT) menos os gols sofridos. É o coração da nota: mede se o goleiro rendeu acima ou abaixo do que a dificuldade dos chutes pedia.
  • Aproveitamento de defesas — save% (peso 25%). Defesas dividido por defesas mais gols sofridos. Quanto do que foi no gol ele defendeu.
  • Volume de defesas (peso 15%). Quantas defesas fez no jogo.

Cada métrica é comparada com a dos outros goleiros da mesma rodada (quem teve mais de 45 minutos), virando uma escala de 0 a 100; os pesos somam a nota final. Usamos os números totais do jogo, não normalizados por 90 minutos — quem jogou a partida inteira teve mais chance de acumular defesas, e prefere-se comparar o que de fato aconteceu em campo.

Fonte dos dados: relatório oficial da FIFA (Post Match Summary Report) e FotMob.