O gol que Vini perdeu contra o Egito era mesmo um gol feito?

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O gol que Vini perdeu contra o Egito era mesmo um gol feito?

Aos 26 minutos de Brasil 2 x 1 Egito, Vinícius Júnior finalizou e o gol não saiu. Foi o lance mais comentado do amistoso: na memória de quem assistiu, ficou como "gol feito" — daqueles que o atacante "não pode perder". O placar terminou favorável e o assunto seguiu sendo o gol que faltou.

Mas era um gol feito mesmo? Fomos ao relatório de dados da partida para responder com número, não com memória. E o número conta uma história diferente da que ficou no ar.

Quanto valia, de verdade, a chance de Vini

A régua para isso é o xG, os gols esperados: para cada finalização, a métrica estima a probabilidade de aquele chute virar gol, com base em milhares de lances parecidos — de onde foi o chute, em que situação, com que parte do corpo. Um xG de 0,50 quer dizer que metade das finalizações naquelas condições termina em gol.

A chance de Vini aos 26 minutos valia 0,22 de xG.

Em termos práticos: de cada cem chances iguais àquela, só 22 viram gol. Quatro em cada cinco vezes, aquele lance termina exatamente como terminou — sem gol. O desfecho mais provável daquele "gol feito" era o que aconteceu.

Para calibrar o olho, vale uma comparação com o lance que o futebol inteiro trata como a chance mais clara que existe: o pênalti. Uma cobrança de pênalti vale cerca de 0,76 de xG — três em cada quatro entram. A chance de Vini valia menos de um terço de um pênalti.

Neste jogo, nenhum gol saiu de um "gol feito"

O contraste mais interessante do relatório é este: os três gols da partida saíram de chances piores ou pouco melhores que a de Vini.

  • Bruno Guimarães abriu o placar aos 7 minutos numa chance de 0,30 — a chance mais clara do jogo inteiro, e ainda assim um lance que não entra sete em cada dez vezes.
  • Mostafa Ziko empatou aos 11 numa chance de 0,12 — quase metade da de Vini.
  • Endrick fez o gol da vitória aos 52 numa chance de 0,15 — também menor que a de Vini.

Ou seja: a chance "perdida" de Vini foi a segunda melhor da partida, melhor que dois dos três lances que viraram gol. E mesmo a melhor chance do jogo não passou de 0,30. No sentido estatístico, não houve um único gol feito em Brasil x Egito — houve chances difíceis que entraram e uma chance difícil que não entrou.

Qualidade das finalizações de Brasil e Egito

No gráfico, cada bolha é uma finalização: quanto mais alta (e maior), mais clara era a chance. A bolha de Vini é a azul aos 26 minutos, logo acima da linha tracejada das chances mais claras — acompanhada, ali em cima, só pela chance do gol de Bruno Guimarães aos 7. Repare que os outros dois gols do jogo (11 e 52 minutos) saíram de bolhas abaixo da linha. O olho guarda o lance pelo desfecho que imaginou; o gráfico guarda a probabilidade.

E a finalização? Vini bateu mal?

O xG mede a chance antes do chute. Para julgar a batida em si, existe uma segunda métrica: o PsxG (gols esperados pós-chute), calculado só para finalizações no alvo, a partir de onde a bola foi colocada — canto, altura, força. Se o PsxG sai maior que o xG, a batida valorizou a chance; se sai menor, a batida facilitou para o goleiro.

O chute de Vini foi no alvo e saiu com PsxG de 0,25 — um pouco acima dos 0,22 da chance. Em palavras simples: a batida não estragou o lance. Vini colocou a bola onde ela tinha probabilidade de gol compatível com a dificuldade da jogada, e o goleiro fez uma defesa dentro do esperado para o lance. Não foi um chute para fora, não foi um chute fraco no meio do gol.

A mesma lente explica os gols que saíram:

  • Bruno Guimarães transformou uma chance de 0,30 num chute de 0,68 — uma batida que mais que dobrou a probabilidade da jogada. O gol nasceu ali.
  • Ziko pegou uma chance de 0,12 e colocou a bola num chute de 0,45. Outra finalização que valeu mais que o lance.
  • Endrick, curiosamente, marcou com um chute de 0,11 de PsxG — a batida saiu mais acessível do que a chance sugeria, e ainda assim entrou. O futebol não deve nada a ninguém: probabilidade não é sentença, nem contra, nem a favor.

O jogo, para além do lance

Vale situar o lance no todo. O Brasil acumulou 1,11 de xG contra 0,26 do Egito — lembrando que o xG acumulado mede o acúmulo de tentativas, não "quantos gols faltaram": somar 1,11 não significa que o time "devia" ter feito um gol, e sim que criou volume de chances ao longo da partida.

Corrida de xG da partida

A corrida de xG mostra esse acúmulo minuto a minuto: cada degrau é uma finalização, e as estrelas marcam os gols. A linha do Brasil sobe quase que só no primeiro tempo (0,94 dos 1,11 vieram antes do intervalo) e o degrau de Vini aos 26 é um dos maiores da linha azul. O placar de 2 x 1, nesse retrato, é coerente com o que cada time produziu.

O que fica

A honestidade pede duas ressalvas. Primeiro: o xG é uma média histórica de lances parecidos — ele não enxerga tudo de um lance específico, e um único jogo (ainda mais um amistoso) é amostra pequena para qualquer veredicto sobre um jogador. Segundo: nada aqui diz que Vini não pudesse ter marcado; diz apenas qual era o tamanho real da aposta.

Mas é justamente esse o ponto do post. Quando o estádio levanta, a memória registra o gol que "já era". A estatística registra outra coisa: uma chance que não entra quatro em cada cinco vezes, finalizada no alvo, com uma batida que não piorou em nada a probabilidade do lance. Entre o "gol feito" da arquibancada e os 0,22 do relatório, há um espaço enorme — e é nesse espaço que mora boa parte da injustiça com quem finaliza.

O gol que Vini perdeu, pelos números, nunca esteve feito.


Todos os números deste post vêm do relatório de dados da partida (Wyscout). xG: gols esperados — probabilidade de uma finalização virar gol, estimada antes do chute. PsxG: gols esperados pós-chute — a mesma probabilidade, recalculada depois do chute a partir de onde a bola foi colocada (só para finalizações no alvo).