O mapa para enfrentar o Japão nos 16-avos

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O mapa para furar o Japão nos 16-avos

Imagine que o relatório a seguir caísse na mesa da comissão de Carlo Ancelotti antes de Brasil x Japão nos 16-avos. A pergunta não é "o Japão é bom?" — é mais útil que isso: como o Japão joga, por onde ele machuca e por onde dá para furá-lo. Analisamos os três jogos da fase de grupos da Copa 2026 (Holanda 2-2, Tunísia 0-4 e Suécia 1-1) com os dados da FIFA e do FotMob, e completamos com o relatório de elenco do Wyscout, que soma cinco jogos — os três da Copa mais dois amistosos de março (Inglaterra 0-1 e Escócia 0-1). Onde a amostra for curta, dizemos.

Antes de tudo, um aviso que vale para o texto inteiro: vamos usar bastante o xG. Ele é o "tanto de chance criada" — cada finalização recebe uma nota de 0 a 1 com a probabilidade de virar gol, pela qualidade do lance (distância, ângulo, tipo de jogada). Somar o xG mede volume e qualidade de chance, nunca "os gols que deveriam ter saído". Para falar de perigo de verdade, contamos as chances claras — finalizações com xG de 0,2 ou mais, o patamar em que se costuma marcar com regularidade. E uma checagem que fizemos de saída: nos três jogos da Copa, o Japão não teve um pênalti sequer — todo o xG citado aqui é de jogada ou bola parada.

Um time, três caras

A primeira coisa a entender do Japão é que ele não tem um jeito só de jogar. Ele se molda ao adversário. Olhe a posse de bola nos três jogos — a fatia de tempo em que o time teve a bola nos pés:

Posse de bola do Japão por jogo, com o número de pressões defensivas em cada partida. Quanto mais alta a barra, mais o Japão teve a bola.
Como ler: cada barra é a posse do Japão num jogo; a linha tracejada marca os 50%. O número dentro da barra é quantas vezes o time pressionou o adversário com a bola — a "pressão direta" mede o esforço de marcação sobre quem está com a bola.

Contra a Holanda, uma das seleções mais fortes do grupo, o Japão abriu mão da bola: 37% de posse, recuado, e ao mesmo tempo o maior volume de marcação dos três jogos (316 pressões). Foi um time de bloco, esperando para sair na hora certa. Contra a Tunísia, o lado mais fraco da chave, fez o oposto: 55% de posse e controle do jogo — boa parte do passeio do 4-0 vem do nível do adversário, não só da qualidade do ataque japonês. Contra a Suécia, ficou no meio-termo, equilibrado. Para o Brasil, o jogo mais instrutivo dos três é o da Holanda — a única vez em que o Japão encarou um adversário de cima, e a única amostra que temos de como ele se postura diante de um favorito: se fechou e abriu mão da bola. Não dá para cravar que repetirá a dose, mas é a referência mais próxima que a Copa oferece.

Como o Japão cria — e o mito do contra-ataque

Quando o Japão tem a bola, de onde vêm as finalizações? Somando os três jogos, são 29 chutes. Vinte e dois nasceram de jogada trabalhada (com 3,45 de xG somado), cinco de escanteio (0,41) e apenas dois de transição rápida (0,08 de xG — quase nada). Ou seja: apesar de se fechar contra os grandes, o Japão não é um time de contra-ataque. O perigo dele é a jogada construída, geralmente pelo meio. Vale o Brasil ter equilíbrio defensivo ao perder a bola, mas o medo do contragolpe relâmpago não se sustenta no que vimos.

O detalhe decisivo é a qualidade dessas chances — e aqui mora a maior fragilidade ofensiva do Japão:

Chances claras (finalizações com xG de 0,2 ou mais) criadas pelo Japão e pelo adversário em cada jogo.
Como ler: cada par de barras é um jogo; a barra azul é o Japão, a laranja é o adversário. A altura é quantas chances claras (xG ≥ 0,2, as de marcar com regularidade) cada lado criou.

O recado é forte. Contra a Holanda, que ficou com a bola, o Japão criou zero chance clara. Foram dez finalizações, mas de longe e sem perigo real. Só quando o adversário abriu o jogo — a Tunísia, e em parte a Suécia — o Japão produziu chance de verdade (três e duas). Há um porquê tático: contra o bloco holandês, o Japão até cruzou mais do que em qualquer outro jogo (24 cruzamentos, contra 12 e 14 nos outros dois), mas não furou — nenhuma "chance grande" no FotMob. Contra quem se abre, ele corta pelo centro com quebras de linha (os passes que ultrapassam uma linha de marcação adversária): foram 85 contra a Tunísia. Diante de um bloco compacto, o Japão fica sem plano além do cruzamento. Para o Brasil, a conclusão é montar e manter um bloco central fechado: empurrado para a beirada, o ataque japonês perde muito da força.

Quem faz a bola andar — e quem aparece na área

Duas funções diferentes, dois grupos de jogadores. Para levar a bola ao último terço (o terço do campo mais próximo do gol adversário), o Japão se apoia no lado esquerdo: o lateral Hiroki Ito é quem mais entrega passes lá na frente (25 certos, e 21 passes progressivos — os que avançam a bola de forma significativa em direção ao gol), em parceria com os meias Kamada e Tanaka. Guarde esse nome, Hiroki Ito: ele volta na hora de falar de defesa.

dentro da área, quem aparece são os atacantes de lado e o centroavante. Por toques na área adversária ao longo dos cinco jogos do Wyscout, lideram Keito Nakamura (11), Junya Ito (10), Daizen Maeda (9) e Ayase Ueda (8). É um padrão claro: a bola progride pela esquerda, chega aos pontas, e a finalização sai dos homens de frente, com a chegada de Kamada vindo de trás.

Os homens para vigiar

Se o Brasil tivesse que escolher três nomes para tirar o sono, seriam estes:

  • Kamada — o meia que mais decide. Dois gols nos três jogos, 0,87 de xG acumulado e a melhor nota média do meio japonês (7,75 no FotMob, numa escala em que 7 já é uma boa atuação). Chega da segunda linha sem ser marcado e finaliza, inclusive de bola parada: foi de cabeça, num escanteio, que marcou contra a Holanda. Não pode sobrar na área.
  • Nakamura — o cérebro do ataque. Foi quem mais criou: 0,87 de xA (o "xG das assistências" — o tanto de chance que os passes dele geraram) e duas assistências, além de ser o maior cruzador do time. E ainda é o que mais pisa na área. Quase tudo passa por ele.
  • Ueda — a referência de área. Dois gols, uma assistência, 0,72 de xG e sete finalizações; joga bem de cabeça e ocupa o lugar do goleador clássico.

Vale ainda um olho em Maeda, que rende muito por minuto em campo (um gol e 0,68 de xG em apenas 156 minutos), e em Junya Ito, autor de gol e principal batedor de bola parada do time.

Onde o Japão cede

Aqui está a melhor notícia para o Brasil — mas ela exige precisão. Defensivamente, o Japão é difícil de abrir pelo meio. Nos três jogos, não cedeu nenhuma chance clara ao adversário. Não foi aberto uma vez sequer no jogo construído. Então de onde saíram os gols que sofreu? De situações de baixa probabilidade: a cabeçada de Van Dijk veio de bola parada (xG de só 0,06); os gols de Summerville e Elanga foram finalizações individuais de chance mínima (0,02 cada). Ninguém costurou a defesa japonesa — ela foi vencida pelo lance pontual e pela bola parada.

E é justamente nesses dois pontos que ela se abre. Primeiro, a bola parada: o Japão cedeu 16 escanteios nos três jogos (oito só contra a Suécia) — concede volume de cobranças. Segundo, e mais importante, o jogo aéreo:

Percentual de duelos aéreos ganhos pelo Japão em cada jogo. Abaixo da linha de 50%, o time perdeu a maioria das disputas pelo alto.
Como ler: a barra é a fatia de duelos aéreos (disputas de bola pelo alto) que o Japão venceu em cada jogo. A linha tracejada é a metade; abaixo dela, o time perdeu a maioria.

Contra a Tunísia, frágil, o Japão dominou o alto (78%). Mas contra a Holanda — um time grande e físico, o perfil mais parecido com o do Brasil — venceu só 25% dos duelos aéreos. Apanhou. Some isso ao volume de escanteios cedidos e à fragilidade de alguns marcadores, e o caminho fica desenhado: cruzamento e bola parada são a munição mais provável para furar o Japão.

Tem um zagueiro para mirar? Os números pedem cautela porque o Japão rodou muito a defesa, e as amostras individuais são curtas. Ainda assim, dois sinais se repetem. Hiroki Ito, o lateral-esquerdo, é o elo mais frágil no duelo: foi driblado duas vezes (mais que qualquer companheiro) e ganhou só 29% das disputas pelo chão (quatro de quatorze). E lembra que ele é o homem que mais faz o time progredir? Então atacar o lado dele resolve dois problemas de uma vez: seca a principal saída de bola do Japão e mira o defensor mais vulnerável. Já Watanabe, quando entra na zaga, sofre pelo alto (venceu só dois de seis duelos aéreos) — um alvo natural para cruzamento na segunda trave. O mais confiável no alto é Itakura (venceu cinco de seis), mas ele é peça de rodízio.

O goleiro não é o atalho

Se o plano é furar a estrutura, convém saber que o goleiro não costuma entregar. Zion Suzuki fez os três jogos e foi seguro: nas duas partidas em que levou finalização, evitou um pouco mais gols do que o esperado. A conta vem do xGOT, o "xG depois do chute" — mede a qualidade só dos chutes no alvo que ele enfrentou; quando o goleiro segura mais do que esse número prevê, ele rendeu acima da média. Contra a Holanda, enfrentou 2,16 de xGOT e sofreu dois gols; contra a Suécia, 1,16 e sofreu um — saldo levemente a favor dele nos dois. Joga adiantado, ajudando a linha alta. A mensagem para o ataque do Brasil: o caminho é furar a organização (bola parada, cruzamento, o lado de Hiroki Ito), não esperar a falha do goleiro.

Onde dá para sufocar a saída

Se o Brasil quiser pressionar a saída de bola do Japão em vez de só esperá-lo, há um gatilho claro — e ele aponta, de novo, para a esquerda. Quem mais perde a bola no próprio campo, ao longo dos cinco jogos do Wyscout, são Kamada (43 perdas) e o lateral Hiroki Ito (37), com Junya Ito e Ueda logo atrás. Os adversários forçaram entre 33 e 37 erros de posse do Japão por jogo: ele entrega a bola quando pressionado. Como constrói com passe curto e, contra favorito, abre mão da bola, o gatilho é claro: pressionar o homem da bola na saída pela esquerda (Kamada e Hiroki Ito) e fechar a linha de passe curto — com um cuidado, não dar o espaço nas costas para a corrida de Maeda.

A questão do rodízio

Um último ponto de contexto: o Japão girou muito o elenco na fase de grupos. Na prática, só o goleiro Zion Suzuki disputou os três jogos inteiros; o restante foi revezado. Isso tem dois lados. A favor do Japão, frescor físico num mata-mata. Contra, menos automatismo de um time titular fixo — o que abre espaço para o Brasil provocar situações novas, como jogadas de bola parada ensaiadas e trocas de lado, que cobram entrosamento de uma defesa remontada. (É uma leitura de contexto: o dado agregado não permite medir bem como o time muda após cada substituição.)

O mapa para o Brasil

Juntando tudo, o relatório que entregaríamos à comissão cabe em poucas linhas:

  1. Não estranhar um Japão recuado — foi assim que ele reagiu ao adversário mais forte que pegou na Copa, a Holanda: bloco e bola entregue. É um cenário possível a preparar, não uma certeza.
  2. Fechar o meio. O Japão cria por dentro; empurrado para a beirada, ele cai no cruzamento, que não funcionou contra bloco compacto (24 cruzamentos e nenhuma chance grande diante da Holanda).
  3. Atacar pela direita, em cima de Hiroki Ito — o duelista mais frágil e, ao mesmo tempo, a principal saída de bola do Japão.
  4. Tratar bola parada e cruzamento como arma número um. O Japão cede muitos escanteios e perde o jogo aéreo contra time físico (25% dos duelos contra a Holanda). É o caminho mais provável de furá-lo — com Watanabe, frágil no alto, como alvo.
  5. Marcar Kamada e Ueda na área e vigiar os escanteios de Junya Ito — porque o Japão também pontua de bola parada.
  6. Sem medo do contra-ataque, mas sem presente: a transição rendeu pouquíssimo ao Japão (dois chutes em três jogos), e equilíbrio defensivo normal já resolve.

Nada disso garante o resultado — futebol não se ganha no papel, e três jogos são uma amostra pequena, que pode mudar num mata-mata. Mas, pelo que o Japão mostrou na Copa, o retrato é esse: um adversário organizado e disciplinado, que diante do time mais forte que enfrentou se fechou e custou a criar chance clara, e que tem no alto a sua maior brecha. O Brasil tem com o que furá-lo.