O Marrocos que o Brasil vai encarar no sábado
No sábado, 13 de junho, o Brasil encontra o Marrocos pela Copa do Mundo. Que time vem pela frente? Para responder, analisamos os relatórios de dados (Wyscout) dos últimos quatro amistosos da seleção marroquina: 1 a 1 com o Equador, 2 a 1 no Paraguai, 4 a 0 em Madagascar e 1 a 1 com a Noruega. Quatro adversários de estilos — e níveis — bem diferentes, o que ajuda: dá para ver o que o time mantém quando o contexto muda.
O retrato que sai dos números tem três traços fortes: uma defesa que cede muito pouco, um time que muda de postura conforme o adversário sem perder a identidade, e um lado direito por onde passa quase tudo de bom — e parte do risco também.
O saldo: o placar contou a verdade
Nos quatro jogos, foram 8 gols feitos e 3 sofridos. Para saber se esse saldo é justo, usamos o xG (gols esperados) — uma métrica que olha cada finalização e estima a chance de ela virar gol, pelo histórico de milhares de chutes parecidos (distância, ângulo, tipo de jogada). Um chute do meio da rua vale pouco, perto de 0,03; um pênalti vale 0,76, porque é mais ou menos essa a taxa histórica de conversão.
A soma do Marrocos: 7,49 de xG criado contra 2,41 cedido. O placar agregado de 8 a 3, portanto, reflete bem o que aconteceu em campo — não houve sorte acumulada nem desperdício crônico.
Vale abrir esse número, porque agregado de xG engana. Dois pênaltis estão ali dentro (1,52 do total): Rahimi converteu o dele contra Madagascar; El Aynaoui viu o goleiro equatoriano levar a melhor na cobrança aos 62 minutos. Com bola rolando, a conta fica em 7 gols para 5,97 de xG — um aproveitamento levemente acima do esperado. O que o time criou, ele converteu.
A defesa é o ponto forte
2,41 de xG sofrido em quatro partidas dá uma média de 0,6 por jogo — ou seja, somando todas as finalizações que o Marrocos cedeu por partida, elas não valiam, juntas, nem meio gol. O pico foi contra o Paraguai (1,11); contra Madagascar, o time praticamente não deixou o adversário chutar (0,01).
O mais interessante é como essa defesa se comporta. Usamos aqui o PPDA (passes permitidos por ação defensiva): quantos passes o adversário troca, em média, antes de sofrer um bote. Quanto menor o número, mais intensa a pressão. O do Marrocos variou de 6,5 contra Madagascar — bote a cada meia dúzia de passes, pressão sufocante — a 23,6 contra a Noruega, quando o time aceitou ficar sem a bola (43% de posse) e esperar em bloco. As recuperações de bola contam a mesma história: 27 roubadas no terço final contra Madagascar, só 8 contra a Noruega, com a maioria acontecendo perto da própria área.
Em resumo: não é um time de um modo só. É um time que escolhe a altura da marcação conforme o jogo — e que, em qualquer das versões, cede pouco.
O ataque prefere a bola trabalhada
Nos quatro jogos somados, o Marrocos puxou 117 ataques posicionais e apenas 2 contra-ataques. É um time que quer a bola (55% de posse média) e constrói com paciência, não uma equipe de transição.
A pergunta é o que essa construção rende contra adversário de nível. O gráfico abaixo mostra, jogo a jogo, o xG criado (separando o que veio de pênalti) e o xG cedido — cada par de barras é uma partida; quanto mais alta a barra azul, mais o time criou; a área hachurada é a parte que veio de pênalti.

A goleada sobre Madagascar salta aos olhos (4,02), mas é o jogo que menos diz — era o adversário mais frágil do lote. Nos outros três, a criação com bola rolando ficou entre 0,44 (Equador) e 1,20 (Paraguai). Contra o Equador, em particular, quase tudo que o placar sugere veio da cobrança de pênalti: tirando ela, o time produziu menos de meio gol esperado em 90 minutos.
A qualidade média da chance ajuda a entender: excluindo pênaltis, cada finalização do Marrocos valia 0,136 de xG — na prática, um gol a cada sete ou oito chutes daquele tipo. Não é um time de chegar cara a cara com o goleiro; é um time que finaliza de posições razoáveis, várias vezes.
Quem carrega as chances

O nome no topo é El Aynaoui — e olhe a composição da barra: 1,69 no total, mas 0,76 são do pênalti que ele desperdiçou. O que sobra é o dado mais limpo desses quatro jogos: 0,93 de xG com bola rolando, em só 3 finalizações, e 2 gols (contra Equador e Paraguai, os jogos "de verdade"). É um homem de meio-campo que pisa na área pouquíssimas vezes — mas pisa na hora certa. De quebra, errou 7 passes em 140 (95% de acerto). Dos números que levantamos, é o jogador mais eficiente do time.
Saibari lidera com bola rolando (1,34, 2 gols), com um porém: toda a produção dele saiu contra Madagascar. E Ezzalzouli é o contraponto do ranking: ninguém finalizou mais (10 chutes), mas a soma vale só 0,79 — chutes de posição difícil, em média 0,08 cada — e o gol ainda não veio.
(Os rankings consideram os jogadores de linha; o relatório lista o goleiro em seção à parte.)
Hakimi é o motor — e o risco mora no mesmo lugar
Para medir quem leva o time ao ataque usamos o passe progressivo: o passe que avança a bola de forma substancial em direção ao gol adversário — o passe que quebra linhas de marcação, em vez de só trocar de lado.

Hakimi tentou 26 passes progressivos (17 certos), liderou o time em xA — os "gols esperados de assistência", que medem a qualidade das chances que os passes de um jogador geram — com 1,23, e deu 3 assistências em 3 jogos. Jogando de lateral-direito. É por ali que o Marrocos sai.
Só que a mesma lista tem o outro lado: ninguém errou mais passes (20 em 135) e, entre os defensores, ninguém perdeu mais duelos — as disputas diretas de bola, no chão ou no alto, entre dois jogadores (23 derrotas em 39 disputas). Lemos isso menos como descuido e mais como o custo do papel que ele assume — quem mais tenta o passe difícil é quem mais vai errá-lo. Mas o dado deixa um caminho claro para o Brasil: pressionar a saída pelo lado direito é atacar a fonte de criação e a zona de risco do Marrocos ao mesmo tempo — e esse é justamente o corredor que costuma ser de Vinícius Júnior.
A zaga, de perto
Se a defesa é o ponto forte do time, vale conhecer quem a forma. O único nome fixo nos quatro jogos foi Diop: titular em todos, 325 minutos. Ao lado dele a vaga rodou entre Chadi Riad e Halhal, e contra a Noruega o Marrocos chegou a armar uma linha de três zagueiros (Diop, Riad e Mazraoui), mais um sinal do time que muda de figurino conforme o adversário. Saadane e Belammari somaram minutos saindo do banco.
Os números de cada um, somando os quatro jogos:
| Zagueiro | Minutos | Duelos defensivos ganhos | Duelos aéreos ganhos | Acerto de passe | Passes progressivos certos |
|---|---|---|---|---|---|
| Diop | 325 (4 jogos) | 6 de 10 | 3 de 6 | 94% | 18 de 25 |
| Chadi Riad | 211 (3 jogos) | 4 de 6 | 7 de 8 | 90% | 9 de 16 |
| Halhal | 171 (3 jogos) | 8 de 12 | 1 de 4 | 95% | 7 de 9 |
Guia de leitura: duelo defensivo é a disputa em que o zagueiro tenta parar o atacante com a bola; duelo aéreo é a disputa pelo alto. "Passes progressivos" são os que avançam a bola de forma substancial — a medida de quanto o zagueiro participa da construção.
Três leituras saem da tabela — todas com a ressalva de que são volumes pequenos, porque os adversários atacaram pouco essa zaga:
Diop é mais um construtor do que um trombador. Os 25 passes progressivos tentados são o segundo maior volume do time, atrás só de Hakimi — para um zagueiro, é muita participação. No alto, venceu metade das disputas (3 de 6). Pressionar a saída dele, portanto, rende duas vezes: tira da jogada o zagueiro que organiza e empurra a construção para rotas menos seguras.
Chadi Riad é o homem do jogo aéreo — e o do risco no passe. Foi quem mais venceu pelo alto (7 de 8), mas o passe vertical dele falha mais: dos 16 progressivos que tentou, só 9 chegaram. Sob pressão, é a saída que mais devolve a bola.
Halhal é o conservador. Acerta 95% dos passes, mas quase não verticaliza (9 tentativas em 171 minutos) e venceu só 1 das 4 disputas aéreas que teve. Os números sugerem que bola alta na área, quando ele estiver em campo, é um caminho a testar.
Para o jogo de sábado, o resumo é: essa zaga cedeu pouquíssimo nos quatro amistosos, mas também foi pouco testada — Diop disputou só 10 duelos defensivos em 325 minutos. Um ataque do nível do Brasil será o primeiro teste de verdade dessa defesa, e os números apontam onde provocar: pressão na saída de Diop e de Riad, e bola aérea na área quando Riad não estiver entre os zagueiros.
As respostas curtas
Para fechar, as perguntas que motivaram este levantamento, em uma linha cada:
- Quem mais acumula xG? El Aynaoui (1,69) — e, tirando o pênalti, segue sendo o caso mais impressionante: 2 gols em 3 chutes de jogada.
- Quem mais quebra linhas? Hakimi, com 26 passes progressivos tentados, seguido de perto pelo zagueiro Diop (25, com 18 certos).
- Quem mais perde duelos? Rahimi, atacante: 24 derrotas em 40 disputas. O número alto é, em parte, da função — ele briga com zagueiros o jogo inteiro. Na amostra curta de 123 minutos, Yassine teve a taxa mais difícil: venceu 5 de 24.
- Quem mais erra passe? Hakimi (20), pelo motivo que o texto explicou: é quem mais arrisca.
O que o Brasil vai encontrar no sábado
O Marrocos desses quatro amistosos é um time sólido atrás (0,6 de xG cedido por jogo), flexível na pressão (do bote imediato ao bloco baixo, conforme o rival), paciente com a bola (117 ataques posicionais, 2 contra-ataques) e dependente do lado direito para criar. Contra um adversário do porte do Brasil, o histórico recente sugere a versão de bloco mais baixo, como diante da Noruega — paciência será parte do jogo. A dúvida honesta que os números deixam está do outro lado: contra adversários de nível — Equador, Paraguai, Noruega — a criação marroquina com bola rolando ficou perto de uma chance de gol por partida.
Fica o lembrete de sempre: são quatro amistosos, contra adversários de força bem diferente — uma amostra que indica tendências, não sentenças. Os números são dos relatórios oficiais de partida do Wyscout; os gráficos e o tratamento dos dados são nossos.