Onde Neymar rende mais hoje: o que o último ano no Santos diz a Ancelotti
Neymar volta à seleção e deve estrear sob Ancelotti contra a Escócia. A pergunta que fica não é se ele joga — é onde ele joga. Meia, para abastecer a área com passes? Ou mais à frente, perto do gol, onde o drible cria espaço e ele mesmo finaliza? Pegamos o relatório do último ano de Neymar no Santos (dados do Wyscout) e fomos atrás da resposta que os números dão. Ela não cabe num rótulo só — e talvez seja por isso que a discussão nunca fecha.
Antes de tudo, o tamanho da amostra, para não exagerar a leitura: na Série A 2026 são 8 jogos e 764 minutos; as seções mais detalhadas do relatório somam o último ano (cerca de 40 partidas, entre 2025 e 2026). É o retrato de pouco mais de uma temporada — suficiente para desenhar um perfil, não para cravar uma sentença definitiva.
O criador apareceu — e o time desperdiçou
Comece pela hipótese do meia. A pergunta é simples: Neymar coloca os companheiros em condição de finalizar?
A resposta é sim, e num patamar alto. No quesito shot assist — o passe que termina em finalização do companheiro, a jogada imediatamente anterior ao chute —, Neymar faz 1,65 por 90 minutos, o que o coloca em 20º entre os atacantes da Série A 2026. Para referência, o líder da liga nesse fundamento, Philippe Coutinho, faz 2,59. Ou seja: quase dois chutes a cada jogo nascem do pé de Neymar.
Some a isso a capacidade de fazer a bola andar. O passe progressivo — aquele que avança a bola de forma relevante rumo ao gol, e não só a toca de lado — aparece 6,36 vezes por 90 minutos, o 14º valor da liga (o líder, Josué, faz 9,22). E, chegando perto, são 4,2 passes para a área por 90 minutos, com 61,5% de acerto. Em campo, isso é um jogador que recebe, vira e empurra o time para frente com regularidade.
Aqui mora a parte que incomoda. Toda essa criação rendeu, no recorte da Série A 2026, uma assistência. A métrica que estima o tanto de assistência que esse volume deveria gerar — o xA (assistência esperada), que soma a probabilidade de gol dos chutes que os passes de Neymar criaram — fica em 1,33. Traduzindo: pela qualidade das chances que ele desenhou, o esperado era mais de uma assistência; saiu uma. O passe chegou; o companheiro não converteu. Á. Barreal, sozinho, recebeu 13 shot assists de Neymar (1,01 de xA) e não transformou nenhum em gol.
É um sinal forte de que a criação está lá e o problema esteve na finalização alheia. Mas é leitura, não prova fechada: num recorte de poucos jogos, a diferença entre xA e assistência também carrega sorte. O honesto é dizer que ele criou bem e o retorno não veio — sem decretar de quem é a culpa.
A finalização rende dentro da área e se perde longe
Agora a hipótese do centroavante: Neymar finaliza bem o suficiente para jogar perto do gol? Para responder sem cair em armadilha, vale a regra da casa sobre xG (gols esperados) — a probabilidade de cada finalização virar gol, dada a qualidade da chance (distância, ângulo, tipo de lance). Um detalhe que muda tudo: xG somado não é "gols que deveriam ter saído", é o volume de chance acumulado. Dez chutões de longe sem perigo somam o mesmo que uma chance cara a cara — e contam histórias opostas. Por isso a gente abre o número por zona, em vez de olhar só o total.
A leitura da tabela: cada linha é uma origem de finalização; as colunas mostram quantos chutes saíram dali, quantos foram no gol, o xG acumulado naquela zona, os gols e a conversão. Os pênaltis e faltas diretas ficam numa linha à parte — então os gols de dentro da área são todos de jogo aberto.
| Origem do chute | Chutes / no gol | xG | Gols | Conversão |
|---|---|---|---|---|
| Dentro da área | 52 / 21 | 11,03 | 11 | 21,2% |
| Fora da área | 38 / 12 | 1,61 | 0 | 0% |
| Após cruzamento | 7 / 3 | 1,88 | 1 | 14,3% |
| Após bola parada | 3 / 1 | 0,52 | 1 | 33,3% |
| Faltas diretas + pênaltis | 22 / 10 | 3,71 | 4 | 18,2% |
| Total | 94 / 37 | 15,67 | 15 | 16% |
Fonte: Wyscout — Player Report (último ano). Pênaltis e faltas diretas isolados na penúltima linha.
O contraste é o ponto. Dentro da área, 52 chutes viraram 11 gols — uma conversão de 21,2%, com 11,03 de xG acumulado. Perto do gol, Neymar é eficiente: o volume de chance que ele cria ali se traduz em gol com regularidade. Fora da área, foram 38 chutes e nenhum gol. É quase um terço de todas as finalizações dele indo embora sem retorno.
Esse desperdício longe da meta explica por que a qualidade média das finalizações dele parece modesta. O xG por chute — a chance média de cada finalização virar gol — é de 0,15, o que dá o 29º lugar na liga. O número não diz que Neymar finaliza mal; diz que ele mistura ótimas chances dentro da área com muitos chutões de fora que puxam a média para baixo. Tire os tiros de longe e o finalizador perto do gol é bem mais perigoso do que o 0,15 sugere.
O drible é arma quando rompe a última linha — não no meio
Falta a peça que a ideia do centroavante driblador pressupõe: o drible de Neymar cria perigo, ou só enfeita? O relatório deixa olhar isso por posição do adversário driblado — e a diferença é reveladora.
A leitura: cada linha é o tipo de marcador que Neymar encarou; as colunas trazem os dribles tentados e os bem-sucedidos, o xG gerado depois daquele drible e os gols que saíram na sequência.
| Adversário driblado | Dribles / certos | % | xG após | Gols após |
|---|---|---|---|---|
| Zagueiro (CB) | 25 / 18 | 72% | 1,87 | 3 |
| Volante (DMF) | 23 / 14 | 60,9% | 0,69 | 0 |
| Meia central (CMF) | 22 / 15 | 68,2% | 0,58 | 0 |
| Lateral (RB) | 13 / 8 | 61,5% | 0,47 | 1 |
| Meia ofensivo (AMF) | 11 / 9 | 81,8% | 0,40 | 0 |
| Total | 107 / 72 | 67,3% | 4,40 | 4 |
Fonte: Wyscout — Player Report (último ano), dribles no último terço.
Repare onde o drible vira gol. Contra zagueiro — o último homem antes do goleiro —, Neymar dribla 25 vezes, passa em 18 (72%) e isso gera 1,87 de xG e 3 gols depois. É o drible que rompe a linha de defesa e abre o gol. Já contra meias e volantes, no meio do campo, ele até dribla mais (81,8% de êxito contra meia ofensivo), mas o perigo criado é pequeno (0,40 de xG, nenhum gol). A conclusão é direta: o drible de Neymar é decisivo perto da área, não recuado. Driblar no meio é progressão bonita; driblar o zagueiro é chance de gol.
O 9 de referência esbarra no físico
Se o drible perto do gol aproxima Neymar do ataque, por que não fixá-lo de vez como centroavante? Porque o tipo de centroavante que segura a bola de costas, ganha a dividida e disputa cruzamento não combina com o que os números mostram.
Neymar procura o duelo — nos duelos ofensivos, as disputas de bola com ele em posse, é o 3º da liga em volume, com 14,61 por 90 minutos. Mas ganha 39,5% deles. Ou seja: ele busca muito o corpo a corpo e leva a melhor em menos de quatro a cada dez. Com 1,75 m e 68 kg, e fraco no jogo aéreo, ele não é o ponto de apoio que aguenta zagueiro nas costas — e o cruzamento, que alimentaria um 9, também não é praça dele (faz 0,47 cruzamento por 90, entre os últimos da liga, e não é cabeceador). Forçá-lo nessa função é pedir o que ele faz de pior.
A sugestão para Ancelotti: o trade-off
Juntando as quatro leituras, vale pesar o que cada uma ganha e perde:
- Como meia recuado: aproveita a melhor parte de Neymar hoje — a visão de passe, a progressão, o abastecimento da área. Mas afasta da área a finalização que rende (os 11 gols saíram de dentro dela) e tira do drible o terreno onde ele vira gol. Há ainda um porém de armador clássico: a precisão de passe de Neymar é de 74%, o 29º valor da liga — boa para criar, não a de um maestro que dita o jogo de trás.
- Como 9 de referência: aproxima da área o finalizador eficiente, mas esbarra no físico, no aéreo e no duelo de 39,5%, e o deixa refém de um cruzamento que ele não bate bem nem cabeceia.
- A inclinação dos números — segundo atacante, entre as linhas: um papel central e avançado, com liberdade, em que Neymar recebe entre a defesa e o meio adversários, progride, dribla rompendo a última linha e finaliza perto do gol. É a função que combina o melhor das duas hipóteses — criação e finalização — e esconde o que ele faz pior: o jogo aéreo, a dividida de 9 e o chute de longe.
Não é uma sentença. O relatório não carimba a posição de Neymar; a gente infere a aptidão pelas zonas de chute, pelos alvos de drible e pelo mapa de passes — e a decisão final, com o desenho do time e o adversário na frente, é de Ancelotti. Mas se a pergunta é onde Neymar entrega mais hoje, aos 34, os números do último ano apontam para o mesmo lugar: perto da área, com a bola nos pés e espaço para encarar o último marcador — nem tão recuado que perca o gol, nem tão fixo na referência que dependa do corpo. O melhor de Neymar mora nos últimos trinta metros, no instante antes de o zagueiro decidir se sai ou fica. É ali que Ancelotti precisa colocá-lo.