Que tipo de 9 o Brasil quer?
A discussão sobre o centroavante do Brasil costuma ter dois nomes: Endrick e Matheus Cunha. Mas quando olhamos só os gols da temporada nos clubes, aparece um terceiro que parece encerrar o assunto: Igor Thiago, com 22 gols — mais que a soma dos outros dois. Seria o caso de cravar o nome dele e seguir em frente.
Foi aí que separamos os pênaltis. Dos 22 gols de Igor Thiago, 8 saíram da marca da cal. Endrick bateu e converteu 1; Matheus Cunha não bateu nenhum. E quando a conta passa a ser só de gols de jogada, a vantagem que parecia enorme vira uma disputa apertada. Este post é sobre o que os números dizem do 9 da seleção depois desse ajuste — e por que, mesmo assim, a resposta não é um nome só, e sim uma pergunta de função.
Como comparamos — e por que os pênaltis saem da conta
Analisamos a temporada 2025/26 de cada um: os jogos pelos clubes e os jogos recentes pela seleção, sempre dentro de um recorte de competições do mesmo nível. A fonte é o relatório de desempenho por partida do Wyscout, somado ao painel-resumo de finalização (que separa os pênaltis).
Dois cuidados de método guiam o texto:
- Tudo "por 90 minutos". As minutagens são desiguais — Igor Thiago jogou 3.643 minutos pelo clube; Endrick, 1.501. Comparar totais brutos premiaria quem jogou mais. Por isso normalizamos: quantas vezes cada ação acontece a cada jogo completo.
- Pênalti à parte. Um pênalti é uma cobrança de fora do fluxo do jogo, com chance de gol altíssima — vale por volta de 0,79 numa escala em que 1 é gol certo. Misturar pênalti com gol de jogada distorce a leitura de quem finaliza melhor em campo aberto. Então separamos: o que é construído na jogada fica de um lado; a cobrança, de outro.
Um aviso de honestidade que vale para o texto todo: os números de clube têm amostra sólida (18 a 38 jogos). Os da seleção são de 3, 4 e 8 jogos — servem de indício, não de sentença. Sempre que usarmos um dado da seleção, vamos lembrar disso.
A conta dos gols, antes e depois dos pênaltis
Antes de tudo, a métrica que vamos usar para medir qualidade de chance: gols esperados (xG). Cada finalização recebe um valor entre 0 e 1 conforme a dificuldade — um toque na pequena área vale quase um gol; um chute de longe, quase nada. Somados, os xG dizem o tamanho das chances que um jogador teve. Aqui usamos a versão de jogada (sem os pênaltis), para comparar o que cada um cria para si em campo aberto.

Como se lê o gráfico: à esquerda, a barra de cada jogador é o gol por 90 minutos dividido em duas partes — a laranja é gol de jogada, a roxa (em cima) é gol de pênalti. O ponto azul marca os gols esperados de jogada por 90 minutos: quando o ponto bate no topo da parte laranja, o jogador finaliza no tamanho das chances que cria. À direita, o aproveitamento contando só as finalizações de jogada.
A virada fica clara. No bruto, Igor Thiago faz 0,54 gol por 90 minutos, contra 0,36 de Endrick e 0,33 de Cunha. Tirados os pênaltis, a fila encosta: 0,35 para Igor Thiago, 0,33 para Cunha, 0,30 para Endrick. A diferença que parecia decisiva — quase o dobro — encolhe para um detalhe. O que separava os três no número de gols era, em boa parte, a responsabilidade de bater pênalti.
Mas gol não é tudo num centroavante — e aqui os perfis se separam
Reduzida a distância nos gols, a pergunta deixa de ser "quem faz mais" e passa a ser "como cada um faz". E nesse ponto os três quase não competem pelo mesmo espaço.

Como se lê o radar: cada ponta é um fundamento; quanto mais longe do centro, mais o jogador se destaca ali. Os eixos são normalizados pelo maior valor entre os três — a ponta cheia marca o melhor do trio naquele item, não um número absoluto. Gols e gols esperados aqui já são os de jogada, sem pênalti.
O desenho conta três histórias:
- Igor Thiago estica para o gol de jogada e, principalmente, para o jogo aéreo.
- Endrick é o que mais finaliza e mais cria para os outros.
- Matheus Cunha é o que mais aparece na área e por onde mais passa a bola.
Quem finaliza melhor em campo aberto
Olhando só a jogada: Igor Thiago fez 14 gols de jogada com gols esperados de 14,4 — ou seja, converte exatamente no tamanho das chances, e ainda tem o melhor aproveitamento do trio (19% das finalizações viram gol). É um finalizador de área eficiente. Matheus Cunha chama atenção por outro motivo: fez 10 gols com xG de jogada de 7,8 — supera as próprias chances (1,29 gol por gol esperado), sinal de boa pontaria, de transformar chance média em gol. Endrick é o contraste: cria as melhores chances de jogada do trio (0,33 de xG por 90, à frente de Cunha), mas marcou abaixo delas (5 gols para 5,5 esperados, aproveitamento de 9%). É um centroavante jovem que chega bem, mas ainda deixa gol pelo caminho.
Quem liga o jogo
Centroavante de seleção também costura o ataque, e aqui a ordem se inverte. Passes recebidos medem o quanto a bola chega ao jogador: Cunha recebeu 23,6 por 90 minutos, Endrick 19,1 e Igor Thiago apenas 9,0. A diferença é de identidade — Cunha desce para pegar a bola e ligar o time; Igor Thiago vive na última linha, recebendo pouco e finalizando muito.
A criação confirma. Usamos as assistências esperadas (xA) — a qualidade dos passes que geram finalização, o quanto o passe "merecia" virar assistência. Endrick lidera com folga (0,27 de xA por 90 e 6 assistências no período); Cunha vem atrás (0,10); Igor Thiago quase não cria (0,05, nenhuma assistência). Em uma frase: Endrick é o que mais cria, Cunha é o que mais liga, Igor Thiago é o que mais finaliza.
As duas armas que seguem sendo só de Igor Thiago
Mesmo com os pênaltis fora da conta de gols de jogada, dois pontos continuam dele. O primeiro é justamente a cobrança: converter 8 pênaltis numa temporada é uma função de confiança que vale pontos — é gol que os outros dois não estão entregando. O segundo é o jogo aéreo: 2,5 duelos aéreos ganhos por 90 minutos, cerca de três vezes mais que Cunha (0,9) e Endrick (0,6). Num jogo travado, decidido em bola alçada ou escanteio, esse é um recurso que muda o plano.
E pela seleção?
Aqui pisamos com cuidado, porque a amostra é pequena — mas ela guarda um detalhe que conversa direto com a história dos pênaltis. Nos 8 jogos recentes pela seleção, Matheus Cunha não marcou — 0 gol, com gols esperados de apenas 0,6 e duas finalizações no alvo; seguiu participando (115 passes recebidos), mas o gol não veio. E os 2 gols de Igor Thiago pela seleção, nos 4 jogos do período, saíram os dois de pênalti — ou seja, em jogo aberto o gol de centroavante também não veio dele. Endrick soma 1 gol e 1 assistência em 3 jogos (122 minutos), em recorte ainda menor. São amostras pequenas demais para sustentar tese — citamos para não esconder, e porque reforçam o que os clubes já indicavam: tirado o pênalti, o gol de nove tem sido escasso para todos pela seleção.
O que os números pedem
Separados os pênaltis, não existe um goleador destacado para resolver a discussão sozinho — existe o nove certo para cada plano de jogo:
- Para um ponto de referência de área, que finaliza no esperado, decide no alto e ainda garante a cobrança de pênalti, os dados apontam Igor Thiago. Ele segue com a leve vantagem no gol de jogada, e oferece dois recursos que os outros não dão.
- Para um nove que liga o jogo e converte com frieza, Matheus Cunha é o que mais participa e o mais clínico diante da chance — com a ressalva honesta de que o gol pela seleção ainda não veio.
- Endrick é o mais jovem e o que cria mais e chega a melhores chances, faltando refinar a finalização. É a aposta de presente e futuro, com a maior margem de evolução.
Nossa leitura, com os dados na mesa: a escolha depende do que o Brasil quer do 9 — e o ajuste dos pênaltis é o que impede a conclusão preguiçosa. O número de gols sozinho elegeria Igor Thiago com folga; a finalização de jogada o mantém à frente, mas por pouco, e deixa claro que Cunha e Endrick resolvem o ataque de outras formas igualmente defensáveis. A vaga não é disputa de um número isolado — é de função.
O que a IA acha sobre qual atacante deve jogar contra o Marrocos
Esta seção é um experimento. Em vez de deixar a escolha no abstrato, cruzamos os perfis acima com o retrato do adversário de sábado — o Marrocos, que analisamos em post próprio a partir dos seus quatro amistosos mais recentes — e pedimos a uma inteligência artificial o veredito: dos três, quem ela escalaria. A leitura é dela; vale como exercício, não como palavra final.
O ponto de partida é o que o jogo deve pedir de um centroavante. O Marrocos cede pouco (0,6 de gol esperado por jogo) e, contra um adversário do porte do Brasil, tende a esperar em bloco baixo — recuar e fechar espaços, como fez diante da Noruega, quando deixou o rival trocar 23,6 passes antes de cada bote (o tal do PPDA, a medida de intensidade da marcação: quanto mais passes o adversário troca sem ser incomodado, mais recuado o bloco). Na prática, isso significa três coisas para o nove brasileiro: pouco espaço nas costas da defesa, poucas chances claras no jogo todo, e a bola alçada na área como uma das rotas mais promissoras — o post do Marrocos aponta o zagueiro Halhal como vulnerável no alto (venceu só 1 de 4 disputas aéreas).
Cruzando isso com os perfis, a IA chegou a este desenho:
| Clube 25/26 (só jogada) | Igor Thiago | Matheus Cunha | Endrick |
|---|---|---|---|
| Gols por 90min | 0,35 | 0,33 | 0,30 |
| Gols esperados por 90min | 0,36 | 0,26 | 0,33 |
| Gols por gol esperado | 0,97 | 1,29 | 0,91 |
| Aproveitamento | 19% | 11% | 9% |
| Duelos aéreos ganhos por 90min | 2,5 | 0,9 | 0,6 |
| Passes recebidos por 90min (liga o jogo) | 9,0 | 23,6 | 19,1 |
A escolha da IA é Igor Thiago — para este adversário. O raciocínio: se o jogo for de bloco baixo e cruzamento, o cenário mais provável, ter um ponto de referência que ganha no alto (2,5 duelos aéreos vencidos por 90 minutos, cerca de três vezes mais que os outros) ataca diretamente a fraqueza apontada na defesa marroquina. E num jogo de poucas chances, pesa quem finaliza no tamanho da chance (0,97 gol por gol esperado, melhor aproveitamento do trio) — enquanto Endrick, hoje, marca abaixo do que cria. Some-se a isso a cobrança de pênalti, recurso que decide jogos truncados.
A ressalva que a própria IA fez: o Marrocos tem em Chadi Riad um zagueiro forte no alto (venceu 7 de 8 disputas aéreas). Se ele for titular, o argumento aéreo enfraquece — e a escolha viraria Matheus Cunha, o nove que mais liga o jogo (23,6 passes recebidos por 90 minutos) e o mais clínico diante da chance (1,29 gol por gol esperado), perfil de quem desce, combina e ajuda a furar o bloco. Endrick aparece como terceira opção para este jogo específico: é o de maior teto e o mais criativo, mas a finalização abaixo do esperado é justamente o que mais custa contra quem concede pouco.
Em uma linha: plano de cruzamento e bola parada, Igor Thiago; plano de posse e combinação para abrir o bloco, Matheus Cunha — com o detalhe de que a escalação da zaga marroquina pode mudar a resposta. Como todo o resto do post, é uma leitura de tendência sobre amostras pequenas (quatro amistosos do Marrocos, poucos jogos de seleção dos atacantes), não uma sentença.
Dados: relatório de desempenho por partida e painel-resumo de finalização do Wyscout, temporada 2025/26 (clubes) e jogos recentes pela seleção; o retrato do Marrocos vem dos relatórios de partida dos seus quatro últimos amistosos. Métricas normalizadas por 90 minutos; gols e gols esperados de jogada excluem pênaltis.