Raphinha deveria mesmo ter feito o gol contra o Marrocos?

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Raphinha deveria mesmo ter feito o gol contra o Marrocos?

Thiago Leifert disse, ao vivo, que Raphinha tinha que fazer aquele gol contra o Marrocos. A frase é daquelas que o estádio inteiro assina embaixo: a bola sobra, o atacante está ali, e o gol parece uma formalidade. Do estúdio, do sofá, da arquibancada, é sempre fácil dizer que não dá para perder.

A pergunta que ninguém faz é outra: aquela chance era mesmo tão fácil quanto pareceu? A história dos gols mostra que certas chances, na prática, são muito mais complicadas do que o olho julga no replay. Resolvemos medir a de Raphinha — e comparar com o que três dos melhores centroavantes do mundo fazem quando estão em dia de marcar.

A chance, em número

No fim do segundo tempo, Vinícius Júnior serviu Raphinha dentro da área. Saiu a finalização que o Brasil pedia para virar o jogo. Não entrou.

Para medir o tamanho daquela chance, usamos o xG — sigla para expected goals, ou "gols esperados". É um número entre 0 e 1 que responde a uma pergunta simples: de cada 100 finalizações batidas de uma situação parecida com aquela (mesma distância, mesmo ângulo, mesma pressão, mesmo tipo de passe que chegou), quantas historicamente viram gol? O Wyscout cruza a jogada com um banco enorme de lances do passado e devolve essa probabilidade.

A chance de Raphinha valeu xG 0,08. Em português: uma finalização daquele tipo vira gol cerca de 8 vezes a cada 100 — mais ou menos uma em doze. Não é a chance fácil que a transmissão vendeu. É uma chance difícil, em que o erro é o desfecho mais provável.

E aqui entra o detalhe que muda a conversa. Existe um irmão do xG chamado PsxG (post-shot expected goals, ou "gols esperados pós-finalização"). Ele mede a mesma coisa — probabilidade de gol —, mas depois da batida: leva em conta para onde a bola foi, com que força, em que canto. O xG julga a chance; o PsxG julga o chute.

A finalização de Raphinha teve PsxG 0,15 — quase o dobro do xG. Traduzindo: ele bateu bem. A batida tirou a chance de 8% e a levou para cerca de 15%; foi melhor do que a média das finalizações daquela posição. Mesmo assim, 15% é 15%: o mais provável continuava sendo não entrar. Raphinha fez a parte dele — pegou uma chance difícil e a deixou menos difícil. O gol é que seguia improvável.

Dificuldade da chance (xG 8%) contra a probabilidade depois da batida de Raphinha (PsxG 15%)
Como ler: a barra da esquerda é a dificuldade da chance antes da finalização; a da direita, a probabilidade depois que Raphinha bateu. A linha pontilhada marca os 50% — o ponto em que entrar seria mais provável que errar. Nenhuma das duas chega perto dela.

"Mas e se fosse um craque ali?"

A reação natural é dizer que um finalizador de elite resolveria. Romário, Ronaldo — nomes que, no imaginário, transformavam qualquer sobra em gol. A comparação é injusta de fazer com dado: na época deles não existia a extração que temos hoje, e ninguém tem o xG das chances que eles converteram. Fica a lenda, e a lenda é linda.

Então trocamos a pergunta por uma que o dado responde: e os grandes centroavantes de hoje? Pegamos Erling Haaland, Harry Kane e Kylian Mbappé e olhamos só os jogos em que cada um marcou. Nesses jogos, calculamos a chance média de cada finalização que eles bateram (o xG dividido pelo número de chutes). Não são necessariamente os "dias inspirados" — são, simplesmente, os jogos em que a bola entrou. A pergunta é: de que tipo de chance esses goleadores costumam fazer seus gols?

xG por finalização: Haaland 26%, Kane 22%, Mbappé 19%, Raphinha 17% — todos acima da chance de 8% do Marrocos
Como ler: cada barra é a probabilidade média de gol das finalizações de um jogador, nos jogos em que ele marcou. Quanto mais à direita, mais "gorda" era a chance média. A linha laranja tracejada é a chance que Raphinha teve contra o Marrocos (8%).

O recado do gráfico é direto. Nos jogos em que marcam, esses atacantes batem, em média, de chances bem mais claras do que aquela: Haaland 26%, Kane 22%, Mbappé 19%. Raphinha, incluído na conta, aparece com 17% — também bem acima dos 8% do lance contra o Marrocos. Ou seja: a chance que "tinha que entrar" valia menos da metade da chance média até do mais modesto desse grupo de craques. Ninguém aí vive de converter lance de 8%. Vivem de aparecer, de novo e de novo, em chances melhores que essa.

E quando a chance fácil não aparece o jogo inteiro?

A comparação acima olha os jogos em que cada um marcou, sem distinguir o tamanho da chance. Mas o lance de Raphinha foi de um tipo específico: uma noite em que o Brasil pouco criou, e a melhor chance ainda valia só 8%. Dá para isolar esse cenário. Fomos atrás dos jogos em que cada um marcou mesmo sem ter tido nenhuma chance clara o jogo todo — jogos em que o xG somado de todas as finalizações do jogador no jogo inteiro não passou de 0,20 (no máximo 20%, mais ou menos uma em cinco). Esse teto cabe uma chance meia-boca de 0,20, ou duas de 0,10, ou um punhado de quase-nada: de qualquer forma, nenhuma boa oportunidade o jogo inteiro. E mesmo assim a bola entrou. É o gol "fabricado do nada".

Fatia dos jogos com gol em que não houve nenhuma chance clara: Raphinha 18%, Mbappé 5%, Kane 4%, Haaland 3%
Como ler: cada barra é a fatia dos jogos com gol em que aquele gol veio de uma noite sem nenhuma chance clara (xG do jogo inteiro de no máximo 20%). Quanto maior a barra, mais o jogador "fabricou" gol do nada. Entre parênteses, o número de vezes que isso aconteceu na carreira inteira.

Olhe os três centroavantes — justamente o tipo de jogador que o senso comum convoca para "resolver" lances assim. Para eles, fabricar gol numa noite sem chance clara é raro: aconteceu em 3% a 5% dos jogos em que marcaram. Em cerca de dez anos de carreira, Haaland fez isso seis vezes; Kane, quatorze; Mbappé, quinze. Não é rotina nem para os maiores finalizadores do mundo — é exceção.

Raphinha chama atenção por aparecer bem à frente: 18% dos jogos em que marcou (22 vezes na carreira). Não lemos isso como "Raphinha finaliza melhor que Haaland" — a amostra é pequena e há um motivo de função (ponta arrisca mais de fora, vive mais desses jogos de pouca chance). Mas o número empurra na mesma direção da nossa tese: se há alguém naquele grupo acostumado a tirar gol de onde não tinha, é justamente Raphinha. Cobrar dele aquela chance como obrigação ignora que, mesmo para quem mais faz esse tipo de gol, o desfecho provável segue sendo a bola não entrar.

No dia seguinte, o avesso: o gol que não era para sair

Improvável não quer dizer impossível — quer dizer improvável. E para ver os dois lados da mesma moeda não foi preciso ir longe: no dia seguinte ao jogo do Brasil, em 14 de junho, o Japão empatou em 2 a 2 com a Holanda. O primeiro gol japonês, de Nakamura aos 57 minutos, saiu de uma finalização de xG 0,04 — cerca de 4%, mais ou menos uma em vinte e cinco. Metade da dificuldade da chance de Raphinha, e ainda mais improvável.

Nakamura bateu, e entrou. O PsxG da finalização foi 0,20: como Raphinha, ele acertou uma batida acima da média para aquela posição — só que, daquela vez, a moeda caiu do lado do gol. Não foi um gol "fácil" que ele "tinha que fazer"; foi um gol improvável que aconteceu. É exatamente o mesmo tipo de lance que, na maioria das vezes, termina como o de Raphinha terminou: sem gol.

A diferença entre os dois não foi quem é melhor finalizador. Foi o acaso que mora dentro de toda chance difícil. Quando a chance vale 4% ou 8%, ela vira gol de vez em quando — e quando vira, parece que "tinha que ser". Quando não vira, parece que "tinha que fazer". Os dois lances eram, na origem, a mesma coisa: improváveis.

O que o número não diz — e a gente faz questão de dizer

Quatro cuidados, para o dado não ser lido além do que ele mostra.

Primeiro: a média engana quando a distribuição é torta. O xG de uma finalização de 8% e o de uma de 60% não se "somam" numa média que descreva bem as duas — os gols nascem mais dos extremos do que do meio. Por isso tratamos o número como uma noção da qualidade da chance, não como um veredito fino. Para a pergunta deste post — "aquela chance era fácil?" — a noção já basta: 8% está abaixo de tudo.

Segundo: pênalti infla a conta, e não infla igual para todos. O xG cobra o pênalti com valor fixo e alto (~76%), e esses números incluem as cobranças. Só que Kane, Mbappé e Haaland são os batedores oficiais de seus times — acumulam pênaltis que puxam a média de chance para cima. Raphinha divide as cobranças no Barcelona, então carrega menos pênalti embutido. Isso significa que parte da vantagem dos três no gráfico é pênalti, não jogada — mais uma razão para não ler ali "fulano finaliza melhor que Raphinha".

Terceiro: amostra pequena pede mão leve. Os gols "fabricados do nada" são poucos — de seis a vinte e dois por jogador em uma década. Servem para mostrar que o feito é raro, não para cravar quem é melhor nele; e parte deles pode ser chute de longe, desvio ou lance que o modelo de xG enxerga como quase impossível. Tratamos esse recorte como ilustração da raridade, não como placar.

Quarto, e é o principal: isto não é um ranking de quem finaliza melhor. O que separa um centroavante de elite não é fazer milagre em chance difícil — é o volume e a qualidade das chances que ele consegue pegar. Haaland chega a finalizações de 26% porque se posiciona para isso, jogo após jogo. A lição não é sobre o pé de Raphinha; é sobre o tamanho real do lance.

O placar contou a verdade?

Voltando à frase do começo. Raphinha tinha que fazer? O dado responde com outra conta: ele teve uma chance de 8%, bateu bem o suficiente para transformá-la em 15%, e mesmo assim o gol era improvável. Quando marcam, os melhores do mundo fazem gol de chances duas, três vezes mais fáceis que aquela — e fabricar gol numa noite sem chance clara é exceção até para eles. Do outro lado, Nakamura mostrou no dia seguinte que o improvável às vezes entra. As duas coisas convivem, e nenhuma transforma um lance de 8% em obrigação.

A sensação de "gol feito" é real, e é o que torna o futebol o que é. Mas sensação e probabilidade não são a mesma coisa. Da próxima vez que a bola sobrar e o estádio gritar "tinha que fazer", vale lembrar: o que parece fácil aos olhos quase nunca é fácil na conta. E reconhecer isso não diminui a cobrança — só a coloca no tamanho certo.

Dados desta análise: relatórios das partidas Brasil 1 x 1 Marrocos e Holanda 2 x 2 Japão e painéis de finalização por jogo dos quatro atacantes (Wyscout).